Há algo de profundamente familiar e, ao mesmo tempo, assustadoramente novo em "Corrida dos Bichos". O filme que estreou no Prime Video não é apenas mais uma produção nacional; é um marco que redefine o que esperamos do nosso cinema. Ele pega um símbolo tão brasileiro quanto o jogo do bicho e o transporta para um futuro distópico, criando uma alegoria visceral sobre a sociedade contemporânea .A primeira grande sacada do filme é ousar ser grandioso. Com um orçamento na casa dos R$ 25 milhões e um elenco que reúne pesos pesados como Rodrigo Santoro, Isis Valverde, Bruno Gagliasso e Seu Jorge, a produção não se contenta com o lugar-comum da comédia ou do drama de favela . Ela abraça a ficção científica e a ação com uma ambição técnica que há muito não víamos por aqui. Sob a direção de Fernando Meirelles, Ernesto Solis e Rodrigo Pesavento, o Rio de Janeiro se transforma. O mar recua, a cidade vira um deserto e a violência se torna um espetáculo para as elites.
É nesse cenário que a trama se desenrola: uma corrida mortal onde competidores, os "Bichos", são patrocinados por milionários em uma disputa que vale dinheiro e, mais importante, a liberdade . A crítica social é afiada e certeira. Não é preciso muito esforço para ver nesse jogo perverso uma metáfora para a cultura das bets, a obsessão por apostas e a desigualdade gritante que assola o país . Como bem apontou Rodrigo Santoro, a distopia do filme nada tem de futurista; ela é um espelho cruel do presente.
O que mais impressiona é a qualidade da execução. As sequências de parkour são eletrizantes e não devem nada às produções de Hollywood, provando que temos capacidade técnica para criar blockbusters de peso. A construção daquele mundo pós-apocalíptico, com suas máscaras de animais e a estética brutal, mostra um cuidado com a narrativa visual que eleva o patamar do gênero no Brasil . Mesmo com as ressalvas de que o roteiro, às vezes, tenta abraçar mais temas do que dá conta, o filme é um exercício de criatividade e coragem.
"Corrida dos Bichos" é a prova de que o cinema nacional não precisa se curvar a fórmulas estrangeiras para dialogar com o público. Ao beber na fonte de sucessos como "Jogos Vorazes", mas com uma identidade inegavelmente brasileira, a produção da Prime Video inaugura um novo caminho . É um filme que celebra nosso talento, nossa capacidade de inovar e, principalmente, nossa coragem de olhar para nossos próprios defeitos através de uma lente de ficção científica. O bicho pegou, e como pegou.