Há filmes que contam histórias. Outros contam pessoas. Kasa Branca, de Luciano Vidigal, faz algo ainda mais raro: conta afetos.Estamos acostumados a ver a periferia no cinema através da lente da tragédia anunciada. É o jovem que vai morrer, o traficante que vai surgir, a violência que virá na próxima esquina. Mas Kasa Branca parece olhar para a favela como quem olha pela janela de casa. Sem exotismo. Sem medo. Sem pedir licença. Apenas vê.
Dé, um garoto que carrega a avó doente e o peso do mundo nos ombros, poderia ser mais um personagem destinado ao sofrimento. Mas Luciano Vidigal parece interessado em outra coisa: mostrar que mesmo quando falta dinheiro, sobra humanidade. E talvez seja justamente isso que incomode alguns espectadores. Estamos tão acostumados a associar pobreza à ausência que esquecemos que ela também produz abundância — de amizade, de invenção, de cuidado.
No filme, a doença de Dona Almerinda não serve para arrancar lágrimas fáceis. Ela funciona como um relógio silencioso lembrando que o tempo está acabando. E quando o tempo acaba, a vida revela suas prioridades. Não importa o aluguel atrasado, o sistema de saúde falho ou as contas acumuladas. O que importa é fazer a avó sorrir mais uma vez.
Existe uma beleza quase revolucionária nisso. Em um país onde tanta gente luta apenas para sobreviver, os personagens de Kasa Branca insistem em viver. Não basta respirar; eles querem dançar, amar, rir, ocupar a laje, contar histórias e criar memórias. Como se dissessem ao mundo que dignidade não é um privilégio de quem mora nos bairros nobres.
Talvez a grande força do filme esteja justamente na recusa em transformar seus personagens em símbolos. Dé não representa a juventude negra. Dona Almerinda não representa a velhice. A favela não representa a exclusão social. Todos eles simplesmente existem. E, no cinema brasileiro, permitir que pessoas periféricas existam com complexidade, humor, desejo e ternura ainda é um gesto político.
Ao final, fica a sensação de que Kasa Branca não fala apenas sobre a morte que se aproxima. Fala sobre aquilo que permanece. Os abraços que resistem. As amizades que seguram o mundo de pé. A memória que sobrevive mesmo quando a mente falha.
Luciano Vidigal filma a periferia como quem filma a própria família. E talvez seja por isso que o filme emocione tanto: porque, por trás de todas as dificuldades, ele nos lembra de uma verdade simples e quase esquecida — ninguém se salva sozinho.
