06 março, 2026

Falem bem ou mal, mas falem do cinema nacional - Manas

 


Às vezes o cinema não serve para escapar da realidade. Serve para encará-la. Foi essa sensação que tive ao pensar em Manas, dirigido por Marianna Brennand. Não é um filme que a gente assiste e sai leve da sala. É um filme que fica. Como um peso no peito. Como uma pergunta que ninguém quer responder. 

O cenário é a Ilha do Marajó, no Pará. Lugar de rios largos, paisagens bonitas e silêncio demais. Ali vive Marcielle, uma menina de treze anos que aprende cedo aquilo que nenhuma criança deveria aprender: que, às vezes, o perigo mora dentro de casa.

Enquanto o rio corre tranquilo, a vida dela parece presa num ciclo que atravessa gerações. As mulheres da comunidade carregam histórias que quase nunca são contadas em voz alta. Algumas viraram murmúrios, outras viraram segredo. E segredo, quando é grande demais, vira parte da paisagem.

O que mais impressiona em Manas não são os gritos — porque quase não há gritos. É justamente o silêncio. O silêncio das mães que já sofreram antes. O silêncio das meninas que aprendem a suportar. O silêncio da comunidade que vê, suspeita, mas prefere olhar para o outro lado.

O cinema brasileiro, muitas vezes, tem essa coragem estranha: a de iluminar aquilo que a sociedade prefere deixar na sombra. Em Manas, a violência não aparece como espetáculo. Ela aparece como rotina — e talvez isso seja ainda mais perturbador.

Marcielle, porém, não aceita completamente esse destino. Em algum momento, nasce nela uma pequena revolta. Não é uma revolução barulhenta. É mais como uma faísca. Pequena, frágil, mas capaz de acender algo maior.

E talvez seja justamente isso que o filme nos deixa: a ideia de que quebrar ciclos começa quase sempre com alguém que decide não aceitar o silêncio.

Quando os créditos sobem, o rio continua correndo no imaginário do espectador. Mas a sensação é de que ele não levou tudo embora. Algumas histórias ficam. Algumas perguntas também.

E talvez essa seja a função mais incômoda — e mais necessária — do cinema.


23 janeiro, 2026

Falem bem ou mal, mas falem do Cinema Nacional - O agente secreto

 


Há filmes que chegam antes mesmo de estrear. “O Agente Secreto”, novo trabalho de Kleber Mendonça Filho, já circula como presságio — desses que não se explicam só pelo currículo do diretor, mas pelo clima que o cerca. Um filme brasileiro que nasce com vocação de conversa internacional, sem abrir mão do sotaque, da rua, da memória incômoda que insiste em nos acompanhar.

Kleber volta a um território que conhece bem: o da história recente filtrada pelo olhar político, pelo suspense que não vem apenas da trama, mas do país. Em “O Agente Secreto”, a ditadura não é pano de fundo; é atmosfera. Ela invade os gestos, os silêncios, os enquadramentos. O cinema de Kleber nunca grita — ele observa. E é justamente nessa observação paciente que mora sua força.

No centro disso tudo está Wagner Moura, em uma atuação que já nasce grande. Moura tem esse raro talento de carregar o Brasil no corpo sem precisar explicá-lo. Seu personagem — tenso, contido, atravessado por medo e convicção — parece feito sob medida para o tipo de interpretação que o ator domina: aquela que diz mais quando cala. Não é exagero imaginar que seja um de seus trabalhos mais maduros, desses que atravessam fronteiras sem legenda emocional.

E aí surge a palavra que todos sussurram, quase com superstição: Oscar. Não como vaidade, mas como símbolo. A esperança de ver “O Agente Secreto” chegar à Academia representa algo maior — a chance de o cinema brasileiro ser reconhecido justamente quando olha para si com mais coragem. Se o Oscar costuma premiar histórias bem contadas, aqui há uma história necessária. E bem contada por quem sabe onde a câmera deve parar.

Talvez o maior triunfo do filme seja esse: transformar memória em expectativa, passado em possibilidade. “O Agente Secreto” carrega a esperança de que o mundo esteja disposto a escutar o Brasil quando ele fala sério — e de que Wagner Moura, mais uma vez, seja a voz que atravessa essa porta.


16 julho, 2025

Valparaíso de Goiás sedia primeira Mostra de Cinema Quilombola com reflexões sobre identidade e território



Evento no CEU das Artes exibiu documentários, promoveu debates e celebrou a cultura afro-brasileira com oficinas e literatura negra

No último sábado, 17 de maio de 2025, Valparaíso de Goiás foi palco da **1ª Mostra de Cinema Quilombola**, organizada pelo **Cine Lobeira** no **CEU das Artes**. Com o tema **“Um olhar quilombola sobre o Brasil”**, o evento reuniu lideranças, cineastas e o público em geral para uma programação que mesclou exibições de filmes, debates, música e atividades culturais.  

### **Cinema como ferramenta de resistência**  

A mostra abriu espaço para vozes quilombolas com a exibição do documentário **“Meada Cor Kalunga”**, dirigido pela liderança **Marta Kalunga**, que também participou de um bate-papo sobre territórios e identidade. Outro destaque foi a participação de **Paulo Alexandre**, representante do **Quilombo Mesquista** (Cidade Ocidental), que apresentou um filme do renomado cineasta **Vladimir Carvalho**.  

A programação ainda incluiu **filmes infantis com temática quilombola**, reforçando a importância da representação negra desde a infância. Após as exibições, o **professor e pesquisador Franco Adriano** mediou um debate e emocionou o público com uma **canção autoral**, unindo arte e reflexão.  

### **Cultura viva: oficinas, literatura e percussão**  

Além do cinema, o evento contou com a **Biblioteca Bitita**, projeto itinerante de **literatura negra**, e uma **oficina de percussão** comandada pelo **Mestre Cezinha**, do bloco afro **Rum Black**. O **Instituto IBEDE** também marcou presença, fortalecendo a rede de apoio à cultura e educação quilombola.  

### **Acessibilidade e inclusão**  

O CEU das Artes proporcionou um **ambiente acessível**, com tradução em **Libras** e estrutura adaptada, garantindo que todos pudessem participar.  

### **Cine Lobeira: cinema como transformação social**  

A mostra integra o projeto **Cine Lobeira**, coordenado pelo **cineasta e morador Thiago Maroca**, que busca levar o cinema a periferias e comunidades, promovendo discussões filosóficas e políticas por meio da sétima arte.  

**“Mais do que exibir filmes, queremos fortalecer narrativas quilombolas e mostrar como o cinema pode ser um instrumento de luta e valorização cultural”**, destacou Maroca.  

O sucesso do evento reforça a importância de iniciativas que ampliem o acesso à cultura e celebrem a diversidade brasileira, colocando Valparaíso de Goiás no mapa das discussões sobre representatividade e cinema independente.  








08 maio, 2025

Vem aí o CINE PENSAR - Um olhar quilombola sobre o Brasil

 


O cine Lobeira voltou em 2025 com tudo. Um projeto diferente para levar o cinema e cultura para a população de valparaiso.

"Cine Lobeira Apresenta: Cine Pensar – Um Olhar Quilombola sobre o Brasil" promete ser uma experiência cultural rica e diversa.


📅 Data: 17 de maio

⏰ Horário: A partir das 14h

📍 Local: CEU das Artes de Valparaíso


Programação:

14:30 🥁 Oficina de percussão com Afro Rum Black – Uma imersão nos ritmos afro-brasileiros.

16:00🎬 Mostras de cinema infantil 

17:00🎬 Mostras de cinema Quilombola

18:00💬 Bate-papo especial com Marta Kalunga – Cineasta e liderança quilombola, trazendo reflexões importantes sobre o Brasil.

19:00 Encerramento!


Uma ótima oportunidade para celebrar a cultura quilombola, o cinema e a música. Não perca!



10 março, 2025

Falem bem ou mal, Mas falem do Cinema Nacional - Carandiru


 

Ao terminar o livro, a vontade de rever o filme de Hector Babenco surge como um ímpeto natural. Quero enxergar na tela as nuances que Drauzio desenhou com palavras. Mas, ao dar o play, percebo algo curioso: o Carandiru.

Enquanto Drauzio, com seu olhar clínico e empático, nos apresenta histórias de indivíduos de presidiários com o distanciamento de quem precisa salvar vidas sem julgar seus pacientes, Babenco nos joga no olho do furacão. O filme não economiza em choques visuais e atuações intensas, condensando personagens e desenvolvendo relatos em uma narrativa mais linear. Se no livro há espaço para a oralidade e o devaneio, no cinema, há urgência e fatalidade.

A diferença mais gritante, porém, não é impacto final. No livro, o massacre do Carandiru se desenha aos poucos, uma tragédia anunciada que chega com o peso da impotência. No filme, a chacina vem como um golpe brutal, quase sem aviso, preenchendo a tela com o sangue de um sistema falido. O espectador não tem tempo para a reflexão serena que o Drauzio-escritor proporciona; é atingido pela violência de forma crua e direta.

Ao terminar o filme, feche os olhos e ouça a voz do médico ecoando em minha memória: "A cadeia é um mundo à parte, com seus próprios leis e sentimentos". A ficção, por mais bem feita que seja, jamais substituirá a complexidade do relato real. Mas talvez seu papel não seja esse. Talvez a força do Carandiru , o filme, esteja nas histórias.

O filme possui mais de 20 anos de lançado, mas vale ser visto sim. 

Fica a dica

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