11 agosto, 2026

Falem bem ou mau mas falem do cinema nacional - A corrida do bichos


Há algo de profundamente familiar e, ao mesmo tempo, assustadoramente novo em "Corrida dos Bichos". O filme que estreou no Prime Video não é apenas mais uma produção nacional; é um marco que redefine o que esperamos do nosso cinema. Ele pega um símbolo tão brasileiro quanto o jogo do bicho e o transporta para um futuro distópico, criando uma alegoria visceral sobre a sociedade contemporânea .A primeira grande sacada do filme é ousar ser grandioso. Com um orçamento na casa dos R$ 25 milhões e um elenco que reúne pesos pesados como Rodrigo Santoro, Isis Valverde, Bruno Gagliasso e Seu Jorge, a produção não se contenta com o lugar-comum da comédia ou do drama de favela . Ela abraça a ficção científica e a ação com uma ambição técnica que há muito não víamos por aqui. Sob a direção de Fernando Meirelles, Ernesto Solis e Rodrigo Pesavento, o Rio de Janeiro se transforma. O mar recua, a cidade vira um deserto e a violência se torna um espetáculo para as elites.

É nesse cenário que a trama se desenrola: uma corrida mortal onde competidores, os "Bichos", são patrocinados por milionários em uma disputa que vale dinheiro e, mais importante, a liberdade . A crítica social é afiada e certeira. Não é preciso muito esforço para ver nesse jogo perverso uma metáfora para a cultura das bets, a obsessão por apostas e a desigualdade gritante que assola o país . Como bem apontou Rodrigo Santoro, a distopia do filme nada tem de futurista; ela é um espelho cruel do presente.

O que mais impressiona é a qualidade da execução. As sequências de parkour são eletrizantes e não devem nada às produções de Hollywood, provando que temos capacidade técnica para criar blockbusters de peso. A construção daquele mundo pós-apocalíptico, com suas máscaras de animais e a estética brutal, mostra um cuidado com a narrativa visual que eleva o patamar do gênero no Brasil . Mesmo com as ressalvas de que o roteiro, às vezes, tenta abraçar mais temas do que dá conta, o filme é um exercício de criatividade e coragem.

"Corrida dos Bichos" é a prova de que o cinema nacional não precisa se curvar a fórmulas estrangeiras para dialogar com o público. Ao beber na fonte de sucessos como "Jogos Vorazes", mas com uma identidade inegavelmente brasileira, a produção da Prime Video inaugura um novo caminho . É um filme que celebra nosso talento, nossa capacidade de inovar e, principalmente, nossa coragem de olhar para nossos próprios defeitos através de uma lente de ficção científica. O bicho pegou, e como pegou.

09 julho, 2026

Falem bem ou mal, mas falem do cinema nacional - Kasa Branca

    


     Há filmes que contam histórias. Outros contam pessoas. Kasa Branca, de Luciano Vidigal, faz algo ainda mais raro: conta afetos.Estamos acostumados a ver a periferia no cinema através da lente da tragédia anunciada. É o jovem que vai morrer, o traficante que vai surgir, a violência que virá na próxima esquina. Mas Kasa Branca parece olhar para a favela como quem olha pela janela de casa. Sem exotismo. Sem medo. Sem pedir licença. Apenas vê.
    Dé, um garoto que carrega a avó doente e o peso do mundo nos ombros, poderia ser mais um personagem destinado ao sofrimento. Mas Luciano Vidigal parece interessado em outra coisa: mostrar que mesmo quando falta dinheiro, sobra humanidade. E talvez seja justamente isso que incomode alguns espectadores. Estamos tão acostumados a associar pobreza à ausência que esquecemos que ela também produz abundância — de amizade, de invenção, de cuidado. 
        No filme, a doença de Dona Almerinda não serve para arrancar lágrimas fáceis. Ela funciona como um relógio silencioso lembrando que o tempo está acabando. E quando o tempo acaba, a vida revela suas prioridades. Não importa o aluguel atrasado, o sistema de saúde falho ou as contas acumuladas. O que importa é fazer a avó sorrir mais uma vez. 
        Existe uma beleza quase revolucionária nisso. Em um país onde tanta gente luta apenas para sobreviver, os personagens de Kasa Branca insistem em viver. Não basta respirar; eles querem dançar, amar, rir, ocupar a laje, contar histórias e criar memórias. Como se dissessem ao mundo que dignidade não é um privilégio de quem mora nos bairros nobres.
        Talvez a grande força do filme esteja justamente na recusa em transformar seus personagens em símbolos. Dé não representa a juventude negra. Dona Almerinda não representa a velhice. A favela não representa a exclusão social. Todos eles simplesmente existem. E, no cinema brasileiro, permitir que pessoas periféricas existam com complexidade, humor, desejo e ternura ainda é um gesto político.
        Ao final, fica a sensação de que Kasa Branca não fala apenas sobre a morte que se aproxima. Fala sobre aquilo que permanece. Os abraços que resistem. As amizades que seguram o mundo de pé. A memória que sobrevive mesmo quando a mente falha.
        Luciano Vidigal filma a periferia como quem filma a própria família. E talvez seja por isso que o filme emocione tanto: porque, por trás de todas as dificuldades, ele nos lembra de uma verdade simples e quase esquecida — ninguém se salva sozinho. 

26 junho, 2026

Falem bem ou mal, mas falem do cinema nacional - Oeste outra vez

Quando o Oeste descobre que não há mais para onde fugir.

Há filmes que contam uma história. E há filmes que nos fazem lembrar de pessoas que conhecemos, de silêncios que já atravessamos e de perdas que nunca aprenderam a dizer o próprio nome. Oeste Outra Vez pertence a esse segundo grupo.

O título promete um oeste. Nossa memória logo convoca cavalos, duelos, homens de poucas palavras e justiça feita à bala. Mas o filme nos entrega algo mais desconfortável: um sertão onde o maior duelo acontece dentro de cada personagem. A arma continua existindo, mas o tiro mais certeiro é o da solidão.

Existe um momento da vida em que percebemos que crescer não significa vencer. Significa apenas carregar melhor aquilo que nunca conseguimos resolver. Os homens de Oeste Outra Vez parecem viver exatamente aí: caminham muito, falam pouco e carregam um peso que não cabe nas costas. Não é a paisagem árida que os endureceu. Foi a dificuldade de admitir fragilidade.

Enquanto assistia, pensei que o Brasil também possui seu próprio Velho Oeste. Não aquele dos filmes americanos, mas um território emocional onde orgulho vale mais que afeto, onde pedir perdão parece covardia e onde amar continua sendo um verbo perigoso. Nesse lugar, muitos preferem perder tudo a confessar que sentiram falta de alguém.

Talvez seja por isso que o filme incomode tanto. Ele não nos oferece heróis. Oferece seres humanos. E seres humanos são contraditórios: amam enquanto machucam, procuram companhia enquanto empurram o outro para longe. Vivem cercados de gente e, ainda assim, parecem condenados ao isolamento.

Há uma beleza discreta em tudo isso. Não uma beleza que consola, mas uma que revela. A fotografia amplia o vazio, os silêncios ganham voz e cada estrada parece perguntar se ainda existe algum caminho de volta. Nem sempre existe.

No fim, percebi que o "outra vez" do título não fala apenas do oeste. Fala de nós. Outra vez repetimos os mesmos erros. Outra vez deixamos o orgulho falar antes do coração. Outra vez acreditamos que fugir resolve aquilo que apenas o encontro pode curar.

Terminei o filme com a sensação de que algumas histórias não terminam quando os créditos sobem. Elas continuam caminhando ao nosso lado, como poeira na barra da calça depois de uma longa estrada. A gente chega em casa, tira os sapatos, mas o caminho permanece.

E talvez seja essa a maior qualidade de Oeste Outra Vez: lembrar que, às vezes, o deserto mais difícil de atravessar não está do lado de fora. Está dentro de quem insiste em seguir em frente sem nunca olhar para trás.

26 maio, 2026

Falem bem ou mal mas falem do cinema nacional - Velhos bandidos

 

Existe um momento da vida em que o sujeito para de correr da polícia porque o joelho já não aguenta. Em compensação, começa a correr atrás da aposentadoria, do remédio de pressão e da dentadura perdida no almoço de domingo. É mais ou menos nesse território — entre a ficha criminal e a fila preferencial — que mora Velhos Bandidos.

O filme tem aquele cheiro raro do cinema brasileiro que entende uma coisa fundamental: envelhecer também pode ser subversivo. Enquanto Hollywood insiste em transformar velhos em máquinas impossíveis de ação, explodindo prédios aos setenta e oito anos sem sequer sentir dor lombar, Velhos Bandidos prefere algo melhor: humanidade. E carisma. Muito carisma.

Porque o verdadeiro assalto do filme acontece no elenco. Cada ator entra em cena como quem já conhece a vida inteira do personagem antes mesmo da primeira fala. Há uma elegância cansada nos olhares, uma ironia madura nos diálogos e aquele tipo de presença que só artistas experientes conseguem carregar. Não precisam provar mais nada. E justamente por isso dominam tudo.

Os veteranos do filme parecem jogar bola de terno: fazem difícil parecer fácil. Uma levantada de sobrancelha vale mais que três páginas de roteiro. Uma pausa antes da piada entrega mais verdade do que muito monólogo dramático. O elenco não interpreta “velhos criminosos”; interpreta homens que sobreviveram tempo suficiente para virar lenda de bar.

E talvez seja isso que emocione tanto. O filme entende que envelhecer não apaga o passado de ninguém. O malandro envelhece, mas continua malandro. O sedutor envelhece, mas continua ajeitando o cabelo ao passar diante de um vidro. O bandido envelhece, mas ainda desconfia de todo mundo na mesa. Algumas coisas a idade não cura — apenas deixa mais engraçadas.

Há também uma beleza melancólica escondida nas cenas. Aqueles personagens carregam um país inteiro nas costas: décadas de golpes, fracassos, noites ruins, cigarros demais e histórias improváveis. São homens que já apanharam da vida, mas ainda encontram energia para planejar “o último grande golpe” — expressão que, no fundo, todo brasileiro acima dos cinquenta já usou para alguma coisa.

No fim, Velhos Bandidos funciona porque respeita seus atores. Não tenta transformá-los em caricatura nem em heróis de desenho animado. Dá espaço para que brilhem justamente como são: experientes, imperfeitos, engraçados e absurdamente vivos em cena.

E o espectador percebe isso imediatamente. Sai do filme com a sensação de ter encontrado velhos amigos perigosos — daqueles que provavelmente roubariam seu carro, mas devolveriam depois de abastecer.

06 março, 2026

Falem bem ou mal, mas falem do cinema nacional - Manas

 


Às vezes o cinema não serve para escapar da realidade. Serve para encará-la. Foi essa sensação que tive ao pensar em Manas, dirigido por Marianna Brennand. Não é um filme que a gente assiste e sai leve da sala. É um filme que fica. Como um peso no peito. Como uma pergunta que ninguém quer responder. 

O cenário é a Ilha do Marajó, no Pará. Lugar de rios largos, paisagens bonitas e silêncio demais. Ali vive Marcielle, uma menina de treze anos que aprende cedo aquilo que nenhuma criança deveria aprender: que, às vezes, o perigo mora dentro de casa.

Enquanto o rio corre tranquilo, a vida dela parece presa num ciclo que atravessa gerações. As mulheres da comunidade carregam histórias que quase nunca são contadas em voz alta. Algumas viraram murmúrios, outras viraram segredo. E segredo, quando é grande demais, vira parte da paisagem.

O que mais impressiona em Manas não são os gritos — porque quase não há gritos. É justamente o silêncio. O silêncio das mães que já sofreram antes. O silêncio das meninas que aprendem a suportar. O silêncio da comunidade que vê, suspeita, mas prefere olhar para o outro lado.

O cinema brasileiro, muitas vezes, tem essa coragem estranha: a de iluminar aquilo que a sociedade prefere deixar na sombra. Em Manas, a violência não aparece como espetáculo. Ela aparece como rotina — e talvez isso seja ainda mais perturbador.

Marcielle, porém, não aceita completamente esse destino. Em algum momento, nasce nela uma pequena revolta. Não é uma revolução barulhenta. É mais como uma faísca. Pequena, frágil, mas capaz de acender algo maior.

E talvez seja justamente isso que o filme nos deixa: a ideia de que quebrar ciclos começa quase sempre com alguém que decide não aceitar o silêncio.

Quando os créditos sobem, o rio continua correndo no imaginário do espectador. Mas a sensação é de que ele não levou tudo embora. Algumas histórias ficam. Algumas perguntas também.

E talvez essa seja a função mais incômoda — e mais necessária — do cinema.


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