30 setembro, 2026

Falem bem ou mal, mas falem do cinema nacional - Cinco tipos de medo


Assistir a Cinco Tipos de Medo é perceber que o medo está muito mais presente em nossas vidas do que imaginamos. Enquanto acompanhava a história, fiquei pensando em como cada pessoa enfrenta seus próprios problemas e em como, muitas vezes, uma única escolha pode mudar completamente o rumo de uma vida.

O que mais me chamou a atenção no filme foi a forma como as histórias dos personagens se cruzam. Cada um carrega seus próprios conflitos, suas dores e seus motivos para sentir medo. Isso me fez refletir sobre como, por trás de cada pessoa, existe uma história que nem sempre conhecemos.

Durante o filme, também pensei em como a violência pode mudar a vida de alguém. Às vezes, uma pessoa só quer encontrar um pouco de paz, mas acaba envolvida em situações que fogem do seu controle. É difícil não se perguntar o que faríamos se estivéssemos no lugar daqueles personagens.

O filme me fez pensar que o medo não está presente apenas nos momentos de perigo. Ele também aparece quando precisamos tomar decisões, quando temos medo de perder alguém ou quando não sabemos o que o futuro nos reserva. No fim, todos nós temos alguma coisa que nos assusta, mesmo que nem sempre tenhamos coragem de admitir.

Quando o filme terminou, fiquei com a sensação de que algumas histórias poderiam acontecer com pessoas que conhecemos ou até mesmo conosco. Talvez seja isso que torne a história tão marcante: ela nos faz perceber que, muitas vezes, a realidade pode ser tão assustadora quanto a ficção.

Saí dessa experiência pensando que o medo faz parte da vida, mas que nem sempre conseguimos controlá-lo. E, acima de tudo, que nunca sabemos realmente o que uma pessoa está enfrentando por trás de suas atitudes.

03 setembro, 2026

Falem bem ou mal, mas falem do cinema nacional - O rei da internet

 


Hoje em dia, parece impossível imaginar a vida sem internet. Ela está no celular, na escola, no trabalho e até nas conversas entre amigos. Mas será que já paramos para pensar no que existe por trás de uma tela? O filme brasileiro O Rei da Internet nos convida justamente a fazer essa reflexão.

A história mostra como a internet pode transformar a vida de uma pessoa. De repente, aquilo que parecia apenas uma brincadeira ou uma oportunidade pode se tornar algo muito maior. A fama, o dinheiro e o reconhecimento chegam rapidamente, mas, junto com eles, aparecem também problemas que nem sempre são percebidos no início.

Assistindo ao filme, fica difícil não pensar em como as redes sociais mudaram a maneira como nos relacionamos. Muitas vezes, queremos ser vistos, curtidos e reconhecidos. Publicamos momentos felizes e esquecemos que, por trás de uma tela, existe uma pessoa com inseguranças, dificuldades e sentimentos.

O mais interessante é perceber que a internet não é simplesmente boa ou ruim. Ela é uma ferramenta. Pode abrir portas, aproximar pessoas e criar oportunidades, mas também pode trazer pressão, exposição e consequências inesperadas. Tudo depende da maneira como a utilizamos.

O Rei da Internet mostra, de forma descontraída, uma realidade bastante presente na vida dos jovens. No final, fica uma pergunta importante: quem realmente controla quem — nós controlamos a internet ou é ela que começa a controlar nossas vidas?

Talvez o verdadeiro “rei” não seja aquele que possui mais seguidores ou visualizações, mas aquele que consegue usar a internet sem deixar que ela determine quem ele é.


11 agosto, 2026

Falem bem ou mau mas falem do cinema nacional - A corrida do bichos


Há algo de profundamente familiar e, ao mesmo tempo, assustadoramente novo em "Corrida dos Bichos". O filme que estreou no Prime Video não é apenas mais uma produção nacional; é um marco que redefine o que esperamos do nosso cinema. Ele pega um símbolo tão brasileiro quanto o jogo do bicho e o transporta para um futuro distópico, criando uma alegoria visceral sobre a sociedade contemporânea .A primeira grande sacada do filme é ousar ser grandioso. Com um orçamento na casa dos R$ 25 milhões e um elenco que reúne pesos pesados como Rodrigo Santoro, Isis Valverde, Bruno Gagliasso e Seu Jorge, a produção não se contenta com o lugar-comum da comédia ou do drama de favela . Ela abraça a ficção científica e a ação com uma ambição técnica que há muito não víamos por aqui. Sob a direção de Fernando Meirelles, Ernesto Solis e Rodrigo Pesavento, o Rio de Janeiro se transforma. O mar recua, a cidade vira um deserto e a violência se torna um espetáculo para as elites.

É nesse cenário que a trama se desenrola: uma corrida mortal onde competidores, os "Bichos", são patrocinados por milionários em uma disputa que vale dinheiro e, mais importante, a liberdade . A crítica social é afiada e certeira. Não é preciso muito esforço para ver nesse jogo perverso uma metáfora para a cultura das bets, a obsessão por apostas e a desigualdade gritante que assola o país . Como bem apontou Rodrigo Santoro, a distopia do filme nada tem de futurista; ela é um espelho cruel do presente.

O que mais impressiona é a qualidade da execução. As sequências de parkour são eletrizantes e não devem nada às produções de Hollywood, provando que temos capacidade técnica para criar blockbusters de peso. A construção daquele mundo pós-apocalíptico, com suas máscaras de animais e a estética brutal, mostra um cuidado com a narrativa visual que eleva o patamar do gênero no Brasil . Mesmo com as ressalvas de que o roteiro, às vezes, tenta abraçar mais temas do que dá conta, o filme é um exercício de criatividade e coragem.

"Corrida dos Bichos" é a prova de que o cinema nacional não precisa se curvar a fórmulas estrangeiras para dialogar com o público. Ao beber na fonte de sucessos como "Jogos Vorazes", mas com uma identidade inegavelmente brasileira, a produção da Prime Video inaugura um novo caminho . É um filme que celebra nosso talento, nossa capacidade de inovar e, principalmente, nossa coragem de olhar para nossos próprios defeitos através de uma lente de ficção científica. O bicho pegou, e como pegou.

09 julho, 2026

Falem bem ou mal, mas falem do cinema nacional - Kasa Branca

    


     Há filmes que contam histórias. Outros contam pessoas. Kasa Branca, de Luciano Vidigal, faz algo ainda mais raro: conta afetos.Estamos acostumados a ver a periferia no cinema através da lente da tragédia anunciada. É o jovem que vai morrer, o traficante que vai surgir, a violência que virá na próxima esquina. Mas Kasa Branca parece olhar para a favela como quem olha pela janela de casa. Sem exotismo. Sem medo. Sem pedir licença. Apenas vê.
    Dé, um garoto que carrega a avó doente e o peso do mundo nos ombros, poderia ser mais um personagem destinado ao sofrimento. Mas Luciano Vidigal parece interessado em outra coisa: mostrar que mesmo quando falta dinheiro, sobra humanidade. E talvez seja justamente isso que incomode alguns espectadores. Estamos tão acostumados a associar pobreza à ausência que esquecemos que ela também produz abundância — de amizade, de invenção, de cuidado. 
        No filme, a doença de Dona Almerinda não serve para arrancar lágrimas fáceis. Ela funciona como um relógio silencioso lembrando que o tempo está acabando. E quando o tempo acaba, a vida revela suas prioridades. Não importa o aluguel atrasado, o sistema de saúde falho ou as contas acumuladas. O que importa é fazer a avó sorrir mais uma vez. 
        Existe uma beleza quase revolucionária nisso. Em um país onde tanta gente luta apenas para sobreviver, os personagens de Kasa Branca insistem em viver. Não basta respirar; eles querem dançar, amar, rir, ocupar a laje, contar histórias e criar memórias. Como se dissessem ao mundo que dignidade não é um privilégio de quem mora nos bairros nobres.
        Talvez a grande força do filme esteja justamente na recusa em transformar seus personagens em símbolos. Dé não representa a juventude negra. Dona Almerinda não representa a velhice. A favela não representa a exclusão social. Todos eles simplesmente existem. E, no cinema brasileiro, permitir que pessoas periféricas existam com complexidade, humor, desejo e ternura ainda é um gesto político.
        Ao final, fica a sensação de que Kasa Branca não fala apenas sobre a morte que se aproxima. Fala sobre aquilo que permanece. Os abraços que resistem. As amizades que seguram o mundo de pé. A memória que sobrevive mesmo quando a mente falha.
        Luciano Vidigal filma a periferia como quem filma a própria família. E talvez seja por isso que o filme emocione tanto: porque, por trás de todas as dificuldades, ele nos lembra de uma verdade simples e quase esquecida — ninguém se salva sozinho. 

26 junho, 2026

Falem bem ou mal, mas falem do cinema nacional - Oeste outra vez

Quando o Oeste descobre que não há mais para onde fugir.

Há filmes que contam uma história. E há filmes que nos fazem lembrar de pessoas que conhecemos, de silêncios que já atravessamos e de perdas que nunca aprenderam a dizer o próprio nome. Oeste Outra Vez pertence a esse segundo grupo.

O título promete um oeste. Nossa memória logo convoca cavalos, duelos, homens de poucas palavras e justiça feita à bala. Mas o filme nos entrega algo mais desconfortável: um sertão onde o maior duelo acontece dentro de cada personagem. A arma continua existindo, mas o tiro mais certeiro é o da solidão.

Existe um momento da vida em que percebemos que crescer não significa vencer. Significa apenas carregar melhor aquilo que nunca conseguimos resolver. Os homens de Oeste Outra Vez parecem viver exatamente aí: caminham muito, falam pouco e carregam um peso que não cabe nas costas. Não é a paisagem árida que os endureceu. Foi a dificuldade de admitir fragilidade.

Enquanto assistia, pensei que o Brasil também possui seu próprio Velho Oeste. Não aquele dos filmes americanos, mas um território emocional onde orgulho vale mais que afeto, onde pedir perdão parece covardia e onde amar continua sendo um verbo perigoso. Nesse lugar, muitos preferem perder tudo a confessar que sentiram falta de alguém.

Talvez seja por isso que o filme incomode tanto. Ele não nos oferece heróis. Oferece seres humanos. E seres humanos são contraditórios: amam enquanto machucam, procuram companhia enquanto empurram o outro para longe. Vivem cercados de gente e, ainda assim, parecem condenados ao isolamento.

Há uma beleza discreta em tudo isso. Não uma beleza que consola, mas uma que revela. A fotografia amplia o vazio, os silêncios ganham voz e cada estrada parece perguntar se ainda existe algum caminho de volta. Nem sempre existe.

No fim, percebi que o "outra vez" do título não fala apenas do oeste. Fala de nós. Outra vez repetimos os mesmos erros. Outra vez deixamos o orgulho falar antes do coração. Outra vez acreditamos que fugir resolve aquilo que apenas o encontro pode curar.

Terminei o filme com a sensação de que algumas histórias não terminam quando os créditos sobem. Elas continuam caminhando ao nosso lado, como poeira na barra da calça depois de uma longa estrada. A gente chega em casa, tira os sapatos, mas o caminho permanece.

E talvez seja essa a maior qualidade de Oeste Outra Vez: lembrar que, às vezes, o deserto mais difícil de atravessar não está do lado de fora. Está dentro de quem insiste em seguir em frente sem nunca olhar para trás.

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