11 agosto, 2026
Falem bem ou mau mas falem do cinema nacional - A corrida do bichos
09 julho, 2026
Falem bem ou mal, mas falem do cinema nacional - Kasa Branca
Há filmes que contam histórias. Outros contam pessoas. Kasa Branca, de Luciano Vidigal, faz algo ainda mais raro: conta afetos.Estamos acostumados a ver a periferia no cinema através da lente da tragédia anunciada. É o jovem que vai morrer, o traficante que vai surgir, a violência que virá na próxima esquina. Mas Kasa Branca parece olhar para a favela como quem olha pela janela de casa. Sem exotismo. Sem medo. Sem pedir licença. Apenas vê.
Dé, um garoto que carrega a avó doente e o peso do mundo nos ombros, poderia ser mais um personagem destinado ao sofrimento. Mas Luciano Vidigal parece interessado em outra coisa: mostrar que mesmo quando falta dinheiro, sobra humanidade. E talvez seja justamente isso que incomode alguns espectadores. Estamos tão acostumados a associar pobreza à ausência que esquecemos que ela também produz abundância — de amizade, de invenção, de cuidado.
No filme, a doença de Dona Almerinda não serve para arrancar lágrimas fáceis. Ela funciona como um relógio silencioso lembrando que o tempo está acabando. E quando o tempo acaba, a vida revela suas prioridades. Não importa o aluguel atrasado, o sistema de saúde falho ou as contas acumuladas. O que importa é fazer a avó sorrir mais uma vez.
Existe uma beleza quase revolucionária nisso. Em um país onde tanta gente luta apenas para sobreviver, os personagens de Kasa Branca insistem em viver. Não basta respirar; eles querem dançar, amar, rir, ocupar a laje, contar histórias e criar memórias. Como se dissessem ao mundo que dignidade não é um privilégio de quem mora nos bairros nobres.
Talvez a grande força do filme esteja justamente na recusa em transformar seus personagens em símbolos. Dé não representa a juventude negra. Dona Almerinda não representa a velhice. A favela não representa a exclusão social. Todos eles simplesmente existem. E, no cinema brasileiro, permitir que pessoas periféricas existam com complexidade, humor, desejo e ternura ainda é um gesto político.
Ao final, fica a sensação de que Kasa Branca não fala apenas sobre a morte que se aproxima. Fala sobre aquilo que permanece. Os abraços que resistem. As amizades que seguram o mundo de pé. A memória que sobrevive mesmo quando a mente falha.
Luciano Vidigal filma a periferia como quem filma a própria família. E talvez seja por isso que o filme emocione tanto: porque, por trás de todas as dificuldades, ele nos lembra de uma verdade simples e quase esquecida — ninguém se salva sozinho.
26 junho, 2026
Falem bem ou mal, mas falem do cinema nacional - Oeste outra vez
26 maio, 2026
Falem bem ou mal mas falem do cinema nacional - Velhos bandidos
Existe um momento da vida em que o sujeito para de correr da polícia porque o joelho já não aguenta. Em compensação, começa a correr atrás da aposentadoria, do remédio de pressão e da dentadura perdida no almoço de domingo. É mais ou menos nesse território — entre a ficha criminal e a fila preferencial — que mora Velhos Bandidos.
O filme tem aquele cheiro raro do cinema brasileiro que entende uma coisa fundamental: envelhecer também pode ser subversivo. Enquanto Hollywood insiste em transformar velhos em máquinas impossíveis de ação, explodindo prédios aos setenta e oito anos sem sequer sentir dor lombar, Velhos Bandidos prefere algo melhor: humanidade. E carisma. Muito carisma.
Porque o verdadeiro assalto do filme acontece no elenco. Cada ator entra em cena como quem já conhece a vida inteira do personagem antes mesmo da primeira fala. Há uma elegância cansada nos olhares, uma ironia madura nos diálogos e aquele tipo de presença que só artistas experientes conseguem carregar. Não precisam provar mais nada. E justamente por isso dominam tudo.
Os veteranos do filme parecem jogar bola de terno: fazem difícil parecer fácil. Uma levantada de sobrancelha vale mais que três páginas de roteiro. Uma pausa antes da piada entrega mais verdade do que muito monólogo dramático. O elenco não interpreta “velhos criminosos”; interpreta homens que sobreviveram tempo suficiente para virar lenda de bar.
E talvez seja isso que emocione tanto. O filme entende que envelhecer não apaga o passado de ninguém. O malandro envelhece, mas continua malandro. O sedutor envelhece, mas continua ajeitando o cabelo ao passar diante de um vidro. O bandido envelhece, mas ainda desconfia de todo mundo na mesa. Algumas coisas a idade não cura — apenas deixa mais engraçadas.
Há também uma beleza melancólica escondida nas cenas. Aqueles personagens carregam um país inteiro nas costas: décadas de golpes, fracassos, noites ruins, cigarros demais e histórias improváveis. São homens que já apanharam da vida, mas ainda encontram energia para planejar “o último grande golpe” — expressão que, no fundo, todo brasileiro acima dos cinquenta já usou para alguma coisa.
No fim, Velhos Bandidos funciona porque respeita seus atores. Não tenta transformá-los em caricatura nem em heróis de desenho animado. Dá espaço para que brilhem justamente como são: experientes, imperfeitos, engraçados e absurdamente vivos em cena.
E o espectador percebe isso imediatamente. Sai do filme com a sensação de ter encontrado velhos amigos perigosos — daqueles que provavelmente roubariam seu carro, mas devolveriam depois de abastecer.
06 março, 2026
Falem bem ou mal, mas falem do cinema nacional - Manas
Às vezes o cinema não serve para escapar da realidade. Serve para encará-la. Foi essa sensação que tive ao pensar em Manas, dirigido por Marianna Brennand. Não é um filme que a gente assiste e sai leve da sala. É um filme que fica. Como um peso no peito. Como uma pergunta que ninguém quer responder.
O cenário é a Ilha do Marajó, no Pará. Lugar de rios largos, paisagens bonitas e silêncio demais. Ali vive Marcielle, uma menina de treze anos que aprende cedo aquilo que nenhuma criança deveria aprender: que, às vezes, o perigo mora dentro de casa.
Enquanto o rio corre tranquilo, a vida dela parece presa num ciclo que atravessa gerações. As mulheres da comunidade carregam histórias que quase nunca são contadas em voz alta. Algumas viraram murmúrios, outras viraram segredo. E segredo, quando é grande demais, vira parte da paisagem.
O que mais impressiona em Manas não são os gritos — porque quase não há gritos. É justamente o silêncio. O silêncio das mães que já sofreram antes. O silêncio das meninas que aprendem a suportar. O silêncio da comunidade que vê, suspeita, mas prefere olhar para o outro lado.
O cinema brasileiro, muitas vezes, tem essa coragem estranha: a de iluminar aquilo que a sociedade prefere deixar na sombra. Em Manas, a violência não aparece como espetáculo. Ela aparece como rotina — e talvez isso seja ainda mais perturbador.
Marcielle, porém, não aceita completamente esse destino. Em algum momento, nasce nela uma pequena revolta. Não é uma revolução barulhenta. É mais como uma faísca. Pequena, frágil, mas capaz de acender algo maior.
E talvez seja justamente isso que o filme nos deixa: a ideia de que quebrar ciclos começa quase sempre com alguém que decide não aceitar o silêncio.
Quando os créditos sobem, o rio continua correndo no imaginário do espectador. Mas a sensação é de que ele não levou tudo embora. Algumas histórias ficam. Algumas perguntas também.
E talvez essa seja a função mais incômoda — e mais necessária — do cinema.
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