Há filmes que chegam antes mesmo de estrear. “O Agente Secreto”, novo trabalho de Kleber Mendonça Filho, já circula como presságio — desses que não se explicam só pelo currículo do diretor, mas pelo clima que o cerca. Um filme brasileiro que nasce com vocação de conversa internacional, sem abrir mão do sotaque, da rua, da memória incômoda que insiste em nos acompanhar.
Kleber volta a um território que conhece bem: o da história recente filtrada pelo olhar político, pelo suspense que não vem apenas da trama, mas do país. Em “O Agente Secreto”, a ditadura não é pano de fundo; é atmosfera. Ela invade os gestos, os silêncios, os enquadramentos. O cinema de Kleber nunca grita — ele observa. E é justamente nessa observação paciente que mora sua força.
No centro disso tudo está Wagner Moura, em uma atuação que já nasce grande. Moura tem esse raro talento de carregar o Brasil no corpo sem precisar explicá-lo. Seu personagem — tenso, contido, atravessado por medo e convicção — parece feito sob medida para o tipo de interpretação que o ator domina: aquela que diz mais quando cala. Não é exagero imaginar que seja um de seus trabalhos mais maduros, desses que atravessam fronteiras sem legenda emocional.
E aí surge a palavra que todos sussurram, quase com superstição: Oscar. Não como vaidade, mas como símbolo. A esperança de ver “O Agente Secreto” chegar à Academia representa algo maior — a chance de o cinema brasileiro ser reconhecido justamente quando olha para si com mais coragem. Se o Oscar costuma premiar histórias bem contadas, aqui há uma história necessária. E bem contada por quem sabe onde a câmera deve parar.
Talvez o maior triunfo do filme seja esse: transformar memória em expectativa, passado em possibilidade. “O Agente Secreto” carrega a esperança de que o mundo esteja disposto a escutar o Brasil quando ele fala sério — e de que Wagner Moura, mais uma vez, seja a voz que atravessa essa porta.






