26 maio, 2026

Falem bem ou mal mas falem do cinema nacional - Velhos bandidos

 

Existe um momento da vida em que o sujeito para de correr da polícia porque o joelho já não aguenta. Em compensação, começa a correr atrás da aposentadoria, do remédio de pressão e da dentadura perdida no almoço de domingo. É mais ou menos nesse território — entre a ficha criminal e a fila preferencial — que mora Velhos Bandidos.

O filme tem aquele cheiro raro do cinema brasileiro que entende uma coisa fundamental: envelhecer também pode ser subversivo. Enquanto Hollywood insiste em transformar velhos em máquinas impossíveis de ação, explodindo prédios aos setenta e oito anos sem sequer sentir dor lombar, Velhos Bandidos prefere algo melhor: humanidade. E carisma. Muito carisma.

Porque o verdadeiro assalto do filme acontece no elenco. Cada ator entra em cena como quem já conhece a vida inteira do personagem antes mesmo da primeira fala. Há uma elegância cansada nos olhares, uma ironia madura nos diálogos e aquele tipo de presença que só artistas experientes conseguem carregar. Não precisam provar mais nada. E justamente por isso dominam tudo.

Os veteranos do filme parecem jogar bola de terno: fazem difícil parecer fácil. Uma levantada de sobrancelha vale mais que três páginas de roteiro. Uma pausa antes da piada entrega mais verdade do que muito monólogo dramático. O elenco não interpreta “velhos criminosos”; interpreta homens que sobreviveram tempo suficiente para virar lenda de bar.

E talvez seja isso que emocione tanto. O filme entende que envelhecer não apaga o passado de ninguém. O malandro envelhece, mas continua malandro. O sedutor envelhece, mas continua ajeitando o cabelo ao passar diante de um vidro. O bandido envelhece, mas ainda desconfia de todo mundo na mesa. Algumas coisas a idade não cura — apenas deixa mais engraçadas.

Há também uma beleza melancólica escondida nas cenas. Aqueles personagens carregam um país inteiro nas costas: décadas de golpes, fracassos, noites ruins, cigarros demais e histórias improváveis. São homens que já apanharam da vida, mas ainda encontram energia para planejar “o último grande golpe” — expressão que, no fundo, todo brasileiro acima dos cinquenta já usou para alguma coisa.

No fim, Velhos Bandidos funciona porque respeita seus atores. Não tenta transformá-los em caricatura nem em heróis de desenho animado. Dá espaço para que brilhem justamente como são: experientes, imperfeitos, engraçados e absurdamente vivos em cena.

E o espectador percebe isso imediatamente. Sai do filme com a sensação de ter encontrado velhos amigos perigosos — daqueles que provavelmente roubariam seu carro, mas devolveriam depois de abastecer.

06 março, 2026

Falem bem ou mal, mas falem do cinema nacional - Manas

 


Às vezes o cinema não serve para escapar da realidade. Serve para encará-la. Foi essa sensação que tive ao pensar em Manas, dirigido por Marianna Brennand. Não é um filme que a gente assiste e sai leve da sala. É um filme que fica. Como um peso no peito. Como uma pergunta que ninguém quer responder. 

O cenário é a Ilha do Marajó, no Pará. Lugar de rios largos, paisagens bonitas e silêncio demais. Ali vive Marcielle, uma menina de treze anos que aprende cedo aquilo que nenhuma criança deveria aprender: que, às vezes, o perigo mora dentro de casa.

Enquanto o rio corre tranquilo, a vida dela parece presa num ciclo que atravessa gerações. As mulheres da comunidade carregam histórias que quase nunca são contadas em voz alta. Algumas viraram murmúrios, outras viraram segredo. E segredo, quando é grande demais, vira parte da paisagem.

O que mais impressiona em Manas não são os gritos — porque quase não há gritos. É justamente o silêncio. O silêncio das mães que já sofreram antes. O silêncio das meninas que aprendem a suportar. O silêncio da comunidade que vê, suspeita, mas prefere olhar para o outro lado.

O cinema brasileiro, muitas vezes, tem essa coragem estranha: a de iluminar aquilo que a sociedade prefere deixar na sombra. Em Manas, a violência não aparece como espetáculo. Ela aparece como rotina — e talvez isso seja ainda mais perturbador.

Marcielle, porém, não aceita completamente esse destino. Em algum momento, nasce nela uma pequena revolta. Não é uma revolução barulhenta. É mais como uma faísca. Pequena, frágil, mas capaz de acender algo maior.

E talvez seja justamente isso que o filme nos deixa: a ideia de que quebrar ciclos começa quase sempre com alguém que decide não aceitar o silêncio.

Quando os créditos sobem, o rio continua correndo no imaginário do espectador. Mas a sensação é de que ele não levou tudo embora. Algumas histórias ficam. Algumas perguntas também.

E talvez essa seja a função mais incômoda — e mais necessária — do cinema.


23 janeiro, 2026

Falem bem ou mal, mas falem do Cinema Nacional - O agente secreto

 


Há filmes que chegam antes mesmo de estrear. “O Agente Secreto”, novo trabalho de Kleber Mendonça Filho, já circula como presságio — desses que não se explicam só pelo currículo do diretor, mas pelo clima que o cerca. Um filme brasileiro que nasce com vocação de conversa internacional, sem abrir mão do sotaque, da rua, da memória incômoda que insiste em nos acompanhar.

Kleber volta a um território que conhece bem: o da história recente filtrada pelo olhar político, pelo suspense que não vem apenas da trama, mas do país. Em “O Agente Secreto”, a ditadura não é pano de fundo; é atmosfera. Ela invade os gestos, os silêncios, os enquadramentos. O cinema de Kleber nunca grita — ele observa. E é justamente nessa observação paciente que mora sua força.

No centro disso tudo está Wagner Moura, em uma atuação que já nasce grande. Moura tem esse raro talento de carregar o Brasil no corpo sem precisar explicá-lo. Seu personagem — tenso, contido, atravessado por medo e convicção — parece feito sob medida para o tipo de interpretação que o ator domina: aquela que diz mais quando cala. Não é exagero imaginar que seja um de seus trabalhos mais maduros, desses que atravessam fronteiras sem legenda emocional.

E aí surge a palavra que todos sussurram, quase com superstição: Oscar. Não como vaidade, mas como símbolo. A esperança de ver “O Agente Secreto” chegar à Academia representa algo maior — a chance de o cinema brasileiro ser reconhecido justamente quando olha para si com mais coragem. Se o Oscar costuma premiar histórias bem contadas, aqui há uma história necessária. E bem contada por quem sabe onde a câmera deve parar.

Talvez o maior triunfo do filme seja esse: transformar memória em expectativa, passado em possibilidade. “O Agente Secreto” carrega a esperança de que o mundo esteja disposto a escutar o Brasil quando ele fala sério — e de que Wagner Moura, mais uma vez, seja a voz que atravessa essa porta.


Veja também

Falem bem ou mal mas falem do cinema nacional - Velhos bandidos

  Existe um momento da vida em que o sujeito para de correr da polícia porque o joelho já não aguenta. Em compensação, começa a correr atrás...